O consumismo é sustentável

Não enlouqueci. Não sou economista. A minha formação é jurídica e psicológica e tenho uma vida dedicada à gestão de muitas pessoas e de muitas vidas.

Decorria o ano de 2002, quando passei a ser colaboradora da ONU na Cimeira Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável (World Summit on Sustainable Development) e percebi que a sustentabilidade é, de facto, a ecologia do sistema e que a mesma não se aplica só à gestão de recursos naturais, mas, inclusive, ao nosso modo de vida.

Essa experiência levou-me a refletir sobre algumas questões que gostaria agora de deixar, também, aos leitores.

Tem levado uma vida ecológica? Uma vida em que se sente congruente e consistente entre trabalho, vida pessoal e vida social? E a interação entre as três parece-lhe sustentável?

Talvez não e está tudo bem, desde que coloque isso na sua agenda e faça um plano de execução para que as três vidas sejam sustentáveis, tal como se de uma empresa se tratasse para que, dessa forma, obtenha o sucesso que sente merecer. Gerir, entregar, dar e receber para merecer.

Para que sejam vidas interligadas e sustentáveis, necessita que as pessoas à sua volta produzam e consumam. No fundo, precisa que elas sejam consumistas.

Falo do consumismo simples de ter peças de roupa a mais ou almoçar e jantar fora, apenas quando pode e sem que para isso tenha de recorrer a crédito ou ficar descapitalizado.

Um consumismo saudável e real que mexa com a economia sem torná-la excêntrica (podem rir-se os economistas, mas, de facto, gosto de mexer na escrita e nas palavras).

Com o devido respeito que me merecem todas as ciências (e neste caso a ciência económica), devo dizer que sou uma fiel apoiante do consumismo e afirmo-me como consumista: tenho mais livros do que preciso (leio-os todos, mas conservo-os por afeto e por gosto), mais CD’s do que alguma vez irei ouvir e já viajei muito e várias vezes para o mesmo destino.

Gosto de cinema e vejo tanto quanto posso, adoro a arte em geral e a pintura em particular (o que me leva a investir em quadros) e, por essa razão, sou assumidamente consumista.

Gosto de apoiar artistas e faço-o através de uma aplicação cujo nome é Patreon.

Se estivesse ao meu alcance, consumiria bastante mais, tivesse eu todo o tempo do mundo para ler tudo o que quero e gostaria de ler, ver tudo o que quero e gostaria de ver, ouvir tudo o que quero e gostaria de ouvir ou, apenas, para sentir tudo o que gostaria de sentir.

Nessa medida, sou uma fiel e orgulhosa consumista.

Sei que apoio o trabalho de muita gente e orgulho-me disso. Sei que, de forma direta ou indireta, o meu consumismo gera riqueza e sustentabilidade em muitas casas e sou feliz e consciente dessa realidade.

Assim, posso afirmar que a minha vida circula com opções de consumismo consciente e sustentável.

E a sua?

Já agora, se me permitem, deixo-vos um apelo. Consumam arte e apoiem os artistas, pois é o melhor consumismo que, alguma vez, poderão vir a ter!

Publicado na Revista FORBES de Abril 2021.

Sobre Anabela dos Reis Moreira

Viajou por muitos países, conheceu muitas pessoas e muitos lugares. Aprendeu com todas as pessoas que observou e com quem conversou. Trabalhou em Portugal, na Bélgica, nos EUA e em Angola. Hoje desenvolve o seu trabalho na área da gestão de pessoas (recursos humanos), formação, coaching e mentoring. E escrita, adora escrever. Assumiu diferentes funções e colaborou com empresas em diferentes estados de maturação, quer em ambiente nacional, quer internacional. Desempenhou funções relacionadas com: gestão do talento e tarefas inerentes; gestão de recursos humanos em sentido lato e formação e desenvolvimento. A nível académico, estudou direito na Universidade de Coimbra, mas foi em Psicologia e no Porto que encontrou a sua verdadeira vocação. É certificada em Coaching, PNL e estuda todos os dias mais um pouco, vê mais um pouco, ouve mais um pouco para poder ser mais cultivada. Hoje gere a UpTogether Consulting e trabalha com pessoas, para pessoas. Faz programas de shaping leaders e reshaping leaders e gosta muito do que faz. Costuma dizer às crianças que forma enquanto voluntária em educação para os direitos humanos: “quando mais soubermos, quanto mais conhecemos e sentimos, menos somos enganados”. Enfrenta cada dia com uma enorme alegria que é simples de ver e sentir!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *