Modelo de líder

Sempre que ouço falar de liderança nos dias que correm, revejo nas entrelinhas a perfeição.

“Um líder é” e “Um líder não é”, correm as imagens do linkedin. E temos os modelos de líder, templates perfeitos que deveríamos aplicar a qualquer liderança e seriam 100% bem-sucedidos… Mas não, não seriam.

Na vida e no trabalho, procuramos a perfeição. O que é, o que não é, e gostamos pouco de incertezas e indeterminações.

Ser líder, só porque não se lideram coisas e sim pessoas, é todos os dias ser e ter incertezas e só assim se é responsável e humano.

Todos os dias procuramos muito (atrevo-me a dizer que procuramos tudo) o que os outros nos podem oferecer, são as chamadas “oportunidades”. Destas ofertas ou oportunidades, em que temos a nossa parte de trabalho, há muitas pessoas que pensam e sentem que não têm a sua parte de trabalho, sendo uma oportunidade, a outra pessoa tem a completa responsabilidade. E é assim que os líderes são, a total causa e a total responsabilidade de tudo. Muitas vezes perfeitos bodes expiatórios para o muito que acontece nas empresas ou organizações.

Somos todos humanos

Somos sim. E acho que por o ser, a liderança se mistura com as emoções e fervilham em nós impressões do que é ou poderia ter sido se a situação ou contexto fosse outro.

Um dos pressupostos da Programação Neuro-Linguística (na qual muitos líderes são treinados) diz-nos que “as coisas são como são”, e a sabedoria popular diz-nos que “o que não tem remédio, remediado está” e eu digo que há que conhecer bem os problemas para apontar soluções. Na busca de soluções, muitas vezes colocamos “pensos rápidos” que fazem as lideranças e equipas mais frágeis. A eterna busca do modelo de líder é o constante problema, sempre patente, sempre presente.

Andamos sempre à procura da perfeição do líder segundo os nossos padrões, mas como nos diz Saramago “É preciso sair da ilha para ver a ilha”, e aplica-se sobretudo a nós mesmos e à forma como nos vemos e vemos o outro.

Somos modelos de pessoas?

Quem das pessoas que me lê é um modelo de pessoa? Quem reúne todas as características da perfeição na liderança (somos todos líderes de alguém e quando não somos de outra pessoa ou pessoas, somos de nós mesmos)? Tem sido um bom líder?

Não somos modelos de nada. Podemos inspirar porque numa parte da nossa vida fomos excecionalmente bons e inspiramos outras pessoas, mas não somos modelos de nada. Porque procuramos para nossos líderes modelos de tudo? E esses líderes existem?

E porque dizemos que ninguém é perfeito, que somos humanos, e procuramos sempre a perfeição?

E se me diz que não procura a perfeição eu pergunto: não quer um líder bem-sucedido (com todas as variáveis do sucesso), um líder feliz, um líder humano, capaz e responsável? E que, se cometer um atentado a uma destas características saiba pedir desculpa e ter tempo para conversar consigo sobre o que aconteceu? A isso chamo modelo de líder e eventualmente todos somos até deixarmos de ser.

Não peça do seu líder mais do que você pode ser e pode dar. Só porque a perfeição é, e sempre será uma utopia. Agora que sabe, largue utopias e viva de reais lideranças. E obrigada por ser bom líder!

Publicado na Revista LÍDER – Ideias que Fazem Futuro a 5 de maio de 2021

Sobre Anabela dos Reis Moreira

Viajou por muitos países, conheceu muitas pessoas e muitos lugares. Aprendeu com todas as pessoas que observou e com quem conversou. Trabalhou em Portugal, na Bélgica, nos EUA e em Angola. Hoje desenvolve o seu trabalho na área da gestão de pessoas (recursos humanos), formação, coaching e mentoring. E escrita, adora escrever. Assumiu diferentes funções e colaborou com empresas em diferentes estados de maturação, quer em ambiente nacional, quer internacional. Desempenhou funções relacionadas com: gestão do talento e tarefas inerentes; gestão de recursos humanos em sentido lato e formação e desenvolvimento. A nível académico, estudou direito na Universidade de Coimbra, mas foi em Psicologia e no Porto que encontrou a sua verdadeira vocação. É certificada em Coaching, PNL e estuda todos os dias mais um pouco, vê mais um pouco, ouve mais um pouco para poder ser mais cultivada. Hoje gere a UpTogether Consulting e trabalha com pessoas, para pessoas. Faz programas de shaping leaders e reshaping leaders e gosta muito do que faz. Costuma dizer às crianças que forma enquanto voluntária em educação para os direitos humanos: “quando mais soubermos, quanto mais conhecemos e sentimos, menos somos enganados”. Enfrenta cada dia com uma enorme alegria que é simples de ver e sentir!

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