Tanto feito. Tanto ainda por fazer. Falo de direitos humanos. Falo de mulheres. Aliás, falo de todas as pessoas a quem são limitados, violados ou negados os seus direitos.

Sou Presidente da Direção de uma Associação de Direitos Humanos. Chama-se Conceitos do Mundo. Porque é que fazemos sentido como associação e porque é que faz sentido a nossa ação e intervenção? Porque uma grande parte das pessoas não sabe os seus direitos humanos. Não sabe que os tem, que são seus, estão proclamados universalmente, são indivisíveis e inter-relacionados e não sabe como se podem fazer valer deles.
Sim, não sabem.

Começa com as nossas crianças. Começa por não terem voz. Não terem voz na família, na escola, na comunidade.

Ontem numa formação humanista, falava com a Andreia, uma educadora de infância que trabalha numa organização muito especial. Ela contava-me que, numa consulta médica com o seu filho, quando uma das enfermeiras lhe perguntava “o que é que a criança tem?” ela voltou-se para o filho e questionou “respondes tu ou queres que eu responda?”. E é mesmo assim. Dar voz. As nossas crianças devem ter uma voz ativa no que a elas diz respeito.

Negamos esse direito, de ter uma voz, liberdade de expressão, às nossas crianças e principalmente às nossas meninas. Em substituição damos convenções obsoletas: “olha como estás sentada. Uma menina não se senta assim.”, “uma menina não diz isso”, “uma menina não faz isso” e por aí adiante. Confundimos orientação vocacional com construções sociais e muitas vezes trocamos desenvolvimento emocional por convenções.
Castramos as crianças da sua curiosidade, criatividade e em vez de lhes darmos o mundo, tiramos direitos fundamentais, como o direito a ser criança.

Tanta vez ouvi em tantas salas de aula onde vou contar “Estórias Interculturais e Humanas”: “porta-te bem”, “não fales”, quando o que mais quero e espero numa criança é que ela fale, questione e seja livre.

E crescemos assim, limitadas e limitados nos nossos direitos e a braços só com deveres e obrigações. Crescemos muitas vezes sem missão, visão e sem ambição estruturada e real.

Generalizo com a consciência de que estamos a mudar e que as novas mães e os novos pais já concedem uma boa brecha de liberdade aos seus filhos e filhas.

Assim, dos direitos humanos das mulheres ou aliás, dos direitos humanos, fica a consciência de que para reconhecermos os direitos do outro, há que respeitar intrinsecamente a sua identidade, valores e crenças, cultura e origem.

Como costumo dizer, direitos humanos tem toda a relação possível com o desenvolvimento pessoal: precisamos de nos sentir, perceber, respeitar, aceitar como pessoas para aceitar, respeitar, perceber e sentir o outro. Os direitos do outro. As suas visões. As suas opções. As suas orientações.

Como vai o seu desenvolvimento pessoal?

Publicado: BIRD Magazine, 11 de março de 2018